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10/02/2013

dobradiças

abriu a porta, cheia de ferrugem nas dobradiças gastas de memórias, e entrou com os olhos cerrados à espera do que não sabe.
o chão estava coberto com uma qualquer substância líquida, como se de uma inundação se tratasse, que pisava com convicção de criança à chuva.
aquele quarto separou-se do resto da casa, ganhou asas e voou por aí, mudou de cor, tornou-se invisível para os comuns mortais e descobriu um sítio para viver que ficava no topo de um monte longe de tudo.
quando abriu os olhos, custava-lhe respirar por disfrutar de um ar tão puro e limpo.

30/01/2013

és feito de flores

todos os loucos são verdade

esses, do amor,
''furiosos'' por dentro,
de uma fúria feliz que transforma nuvens e rios e ondas em palavras.

sou louca?
serei eu, louca,
por não saber onde o sol se põe,
senão nos teus olhos?

sabendo só que tens mãos firmes,
ásperas,
bamboleando no final dos
teus (meus) braços;
e que tens olhos: profundos.

profundos e trémulos

és feito de muitas flores, e cheiros, e flores, e cheiros, e flores...
e como eu gosto de flores...

23/11/2012

os olhos do senhor

os olhos do senhor, que ia no comboio,
eram vazios
longínquos
abertos, embora fechados
fechados, embora abertos
e contavam histórias, sobre
nada.


21/11/2012

pesos

pesos
mortos
são os meus olhos:
quando durmo em versos teus e respirações descoordenadas.

nem sequer sei como é a tua respiração
nem como são os teus olhos, fechados.
mas gostava.
e é isso que me faz pensar nisso
e nos versos teus, e nas respirações descoordenadas.

mas é a pele
e a penugem das mãos
e as unhas, rijas
e os pés, assentes.
mas não conheço de perto.

11/11/2012

III, pag. 37

''(...) acordaram muito cedo as duas irmãs mais belas do bairro: A Ermelinda e a Mafalda. A Ermelinda é aquela nuvem modelada que todos os homens trazem nos olhos (...). A beleza da Mafalda tem um recorte mais difícil de encontrar porque nasceu corcunda e feia.''

José Gomes Ferreira, in
A Poesia Continua, Velhas e  Novas Circunstâncias

06/08/2012

inanimado

estava a reflectir sobre o que merecia respeito.
as nuvens
o sol
as brisas frescas.

(o vento não.
o vento despenteia o cabelo e a alma.)

a água
as flores
a terra.

os minutos frágeis,
gastos por existências frágeis...

as epidemias de aromas frescos
perfumados
perfume.

[ruminando a cabeça por objectos inanimados]