Número total de visualizações de página

30/12/2016

roçar o querer à vontade de matar,
todas as pedras que nos espreitam debaixo do mar,
e mais alguns obstáculos.
aqueles que não são físicos.
que não são sabor ou medo.

- o obstáculo da absoluta intromissão no outro, e não saber como sair.
o peito quebra a cada dia, e quando a noite vem é tudo mais difícil

porque as estrelas não nos sorriem atrás das nuvens.
mas esperamos a sua reacção até de madrugada, sem conseguir esperar o amanhã sem doer.
a noite é um monstro. porque o verdadeiro pesadelo vem dos sonhos que não são maus,
mas que são mentira.

20/12/2016

janela

que janela tão quente.
que janela tão quente se abre diante dos meus cabelos: o vento abraça-me os olhos.
sinto falta da solidão. tenho medo dela mas faz-me falta. saber ser só eu. já me esqueci outra vez de ser só eu. de me despir e deitar-me no chão com a roupa à minha volta. de beber algo quente e não me preocupar em sentir mais sabores a partir daí.

de deixar as janelas abertas e permitir ao sol e ao vento que lutem por um lugar na minha pele.

quero fugir.
deixar de ser alguém.
deixar de precisar dos outros.

quero trepar as montanhas mais altas para descobrir que há sempre mais para subir.
- mergulhar nas ondas com a roupa vestida.



07/11/2016

respirar pelos poros da sua pele é como adormecer numa cama de amor, num abraço eterno que dói

28/10/2016

~

o amor é um sentimento imprevisível.
começa de onde não se espera.
quando penso em como comecei a amar-te, acho que não me consigo lembrar de um momento certo. 
(minto). lembro-me.
ou seria só desejo?
esse desejo de te ter que me perseguiu desde aquele verão quente.
(minto).
esse desejo que me perseguiu desde que te conheci.
desejo esse escondido atrás de mim, atrás de muitas coisas que não sabia explicar. desejo esse que vi como proibido apesar do teu olhar que me mordia.  
essa vontade que começou antes de saber o que é querer alguém, e que descobri, isso sim, nesse verão quente.
tantas más memórias desses dias, e só me lembro do teu último abraço. não te deves lembrar... não te lembras de todas as coisas. nem eu. mas lembro-me desse abraço e das palavras doces.
a verdade é que amei outros. amei-os não tendo conhecimento do oprimido sentimento que me assombrava o peito. mas amei muito.
só que tu, quando passávamos um pelo outro. eras tu, o teu nome sempre significou algo, a tua voz, e a recordação do teu beijo.

amo-te

02/10/2016

~~~~~~

com a noite que chegou sem avisar, e os corpos despidos pela tormenta interior que se açambarcou do espírito, beijaste-me também sem aviso e disseste-me as coisas que sempre esperei que dissesses. 
agarraste-me como sempre esperei que agarrasses, fugiste de ti mesmo com a convicção necessária. 
tudo está bem quando acaba bem.

~~~~~~ balançar os pés dentro da banheira enquanto espero pela cruzada.
as aventuras que se aproximam são quentes como as que já foram.
umas quentes porque o sol nos abraça; outras quentes porque queimam da força do gelo ~~~~~~


26/08/2016

manhã escura.
marcas do recobro de uma noite ausente de escuridão.
o corpo cansado, os olhos sorrindo. o sangue galopa pelas veias.

"onde te vias hoje, há 6 meses?"
definitivamente perdida. não expectante do desenrolar das coisas como estão agora.

o sol nasce na tua boca e põe-se nos teus olhos. e se sinto algo diferente de antes, sou eu.
eu e as minhas defesas rugosas, fortes, coladas à pele, presas à alma, que nos vimos rendidas a ficar contigo.
ninguém sabe explicar.
nem eu, nem a minha dificuldade em gostar das coisas e das pessoas.
mas tu vieste.
de novo.
e tu tens ficado.
só consigo dizer que não sei; que a carne que se quer e deseja é forte, e o espírito parece o mesmo; mas a vida e o espaço são limitados, e o recordar está sempre presente. e por mais que a escolha de o ignorar seja nossa, temo que o vento me leve lá.
até lá, ficamos juntos a bafar da certeza do que somos um para o outro.

11/05/2016

não sei se consigo navegar sozinha.
desaprendi, ao crescer decresci, e fechei-me na pequena caverna dos meus olhos.

27/02/2016

a manhã chegou com pedras, que caíam desamparadas do céu confuso.
o tempo bipolar;
as nuvens que tanto sorriem como rugem.

eram seis da manhã e já não podia ouvir a respiração imaginária no meu pescoço.

como um toque de piano, os dedos dos pés tremem em câimbra,
em sintonia com o meu coração
que vibra

v
   i
      b
          r
             a

                 assustado com o que poderá vir, com o que poderá ser. descubro-me agora. só agora. amar; amar-ME; amar-me a m i m. [como me amar]

o desejo da minha nudez junto de outra nudez, junto da nudez do céu; numa casa sem tecto, numa casa sem chão. na delicadeza de um momento fraco e suave.
(suavidade)

"vai, meu coração (...) quem semeia vento (...) tempestade"







20/02/2016

as mulheres também têm musas

mu·sa 
substantivo feminino
1. [Mitologia Cada uma das deidades que presidiam às ciênciasletras e artes liberaisna mitologia grega.
2. [Figurado]  Numeestropoesia.


"musa", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-


se as musas são poesia, e se parem elas os poetas; poderei ser eu um poeta que procura uma dona de meus dedos pensantes? caberá no mundo um espaço para uma cadeira onde eu me sente, onde escreva noites a fio sobre esta dose de querer que vem avulso no corpo de outrem?
saber que quero e saber quem - tanto o sol como a tempestade - nos espaços entre a trovoada e a luz nublada dos céus azuis. 

penso em cabelos, penso em olhos-quase-negros que tocam no ponto mais branco das açucenas do meu jardim rochoso. será o mal maior das mulheres o de não saber se podem ter musas, se lhes podem tocar?
se podem dançar numa lua solta. 
ter um par, ter uma musa... 

portanto, se musas são poesia - serão o amor? e o amor, será literatura? e a literatura será desejo? e o desejo, será carne? nunca sei. nunca soube. as mulheres também têm musas. pode ser um canto desesperado de um fado meio esquecido; pode ser o trautear de uma avó desgastada pelo tempo; pode ser o cair das cortinas de um teatro vermelho; uma lágrima que percorre a face e as mamas e o umbigo e os joelhos. uma musa pode ser o bocejar de um gato que descansa de descansar, e uma musa pode ser ele.

e     l     e

e·le |ê| 1
(latim illeillailludaqueleaquelaaquilo)
pronome pessoal
Pronome pessoal correspondente à terceira pessoa do singularusado para designar a pessoa ou aquilo de que se fala (ex.: ele  chegouo responsável é elevou falar com ele).

"ele", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-


mas quem me garante que um "ele" é terceira pessoa?
um "ele" sempre foi segunda pessoa. ou primeira. antes de mim, um "ele", antes de "ser" um "é". antes das rosas, os cravos. e antes de "nós", a Liberdade.

e quando vejo o mar a percorrer o mundo e a pintá-lo de azul, ou o campo a pacificar os montes que choram, lembro-me de uma só musa que o saiba apreciar comigo. de um conjunto de frases num papel amachucado que temo em mostrar por nunca saber apresentá-lo. 
tenho medo de apresentar-me como a detentora dessa musa que é poesia em pele, porque sei que não sou musa de ninguém.

um homem pode então ser uma musa, se a sua musa for outra. e será, sempre, musa de poemas por ser poema. porque o esconder-se é bonito e o revelar-se mais é. 

as tardes mais bonitas são aquelas passadas em frente a uma janela que apresenta à casa um mundo que só é preenchido de for avistado em companhia.




18/02/2016

como uma pequena leoa,
furtivamente aproximo;
não és presa, não és caça, não és caso perdido.

em quarto minguante,
olho o céu e sonho com a pequena entrega de um beijo.

da fuga à fuga, do medo de o ter.

17/02/2016

lugar

o relógio das nuvens tocou cedo,
quando respirava entre as almofadas, e os aromas
(a cama cheia de chuva)

não consigo deixar-te ir nas ondas do mar do tempo.

as flores pequenas dos campos voam,
em conformidade com a cor do céu.
eu voo também, junto-me à decisão de ser natural,
corto os braços e colo asas e apego-me ao luto das andorinhas...
porque
tudo morre, tudo pode voltar a morrer mesmo depois de morto.

porém, os raios que passam do telhado inexistente
iluminam as premissas de uma vida adormecida,
e ao sarar as linhas de um casulo do qual escorre sangue doce,
danço nos ponteiros desse relógio sem casa.

desvendo um mundo-mistério, desvendo a vida que me dás
que mesmo que não te seja devolvida é usada sem reserva.

encontrei um fugidio lugar,
o meu chão para os meus pés descalços.

05/02/2016

poço

há precisamente duas semanas precisava de me descobrir. 
passado esse tempo continuo sem saber quem sou. só sei quando tenho fome ou não (sendo que a segunda opção é a mais comum) e só sei quando quero fugir dos locais populados e quando me sinto bem acompanhada. raramente não fujo. raramente crio laços.
raramente sei sequer como os criar, porque o mundo rodeia-me demasiado frequentemente e num tom demasiado claustrofóbico.

ondas de todas as direcções assaltam-me o corpo.

já não sei calcular movimentos e, mais grave que isso, não sei sequer mover-me sozinha. fico à espera de um estímulo musical da própria vida, e a eterna espera dessa sensação prende-me num poço com fundo infinito.

03/02/2016

crise de 1/2 idade aos 20

cai,
o cabelo

o lavatório escurece,
e as ondas do céu tremem


10/01/2016

quem me dera ser uma lagarta no meio do mundo enorme, onde não me sentiria nem a mais nem a menos, apenas me preocupava com a qualidade do verde que ingeria e nem precisava de fugir de ninguém de tão pequenina que era.
quem me dera ser uma lagarta que não precisasse de nadar ou de correr, que a viagem eram todas as viagens, estavam à distância de uma mudança de pele. 
dançava naturalmente (porque é isso que as lagartas fazem), era sábia, e no dia em que me tornasse uma borboleta tinha pouco tempo para bater as asas. assim, batia-as com toda a velocidade, via o planeta só de cima e a vida acabava num último bater de asa em câmara lenta.