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23/08/2014

a casa

enternecida nos teus braços desenho uma onda com o arrepiar dos poros que me cobrem.
num amor quase impossível de tão forte, descubro-te em mim num conforto natural que tanto é eterno como assustador.
levanto-me por não poder mais de tanta luz, e entrego-me durante uns minutos a uma sombra dividida entre o chão e a parede. observo-te e sei que te vou ter para sempre, mesmo que num ápice te envolvas com o mundo, sinto o tumulto da tua voz nos meus cabelos até ao mundo acabar.
já dormes, já respiras: o céu é bonito, hoje. na tranquilidade dos lençóis os momentos perdem-se entre centímetros de distância da pele cansada. dormimos, descansando um no outro.
a casa desaba em cima de nós.

12/08/2014

a (flor da) idade

e quando o sol estoirar?
e quando o vento se esconder, o céu se fundir com o mar e os pêlos caírem pelo meio da pele corrompida?
quando a idade se sobrepuser ao destino do que queríamos ser, quando os olhos não virem mais e os ouvidos chorarem de não conseguir ouvir; e as pestanas forem pó em redor dos olhos, e as memórias a única companhia.
primeiro, uma história de dois minutos; depois, um pequeno conto para rir; no fim, eternos romances para chorar.
e em cada soluço uma lágrima de não saber o que é e o que não é, mas sempre a emoção.
a morte antes da morte plena,
os dias sobrecarregados da dor física.
o medo de envelhecer que nos torna humanos.

enfim, fracos.

03/08/2014

todas as aves

a noite abraça-me
como um corvo agarrado a um corpo morto,
pendurado numa gaiola.

a notícia escura de que a solidão
não é só estar sozinho
embarca no meu rosto,
num rio intermitente e indeciso.

paro, olho a janela,
e tal leoa desnorteada a minha cabeça,
sem estar sequer sobre a terra,
uiva com as estrelas que se escondem nas nuvens negras.

todas as montanhas,
todas as aves
e
todos os plenos pedaços de vida
morrem com os meus braços.

não há mais ninguém aqui senão eu,
senão ele que me afaga os sentidos,
senão a brisa nocturna e cruel.