Número total de visualizações de página

10/09/2014

lua

danço com os braços,
mão dada na tua
com lealdade (não) de fracos,
cujo amor é o chão de factos
só nossos e na lua.

a rua é um baile afogado
em fumo e murmúrios
nos doces subúrbios
cuja doçura é só tua.

23/08/2014

a casa

enternecida nos teus braços desenho uma onda com o arrepiar dos poros que me cobrem.
num amor quase impossível de tão forte, descubro-te em mim num conforto natural que tanto é eterno como assustador.
levanto-me por não poder mais de tanta luz, e entrego-me durante uns minutos a uma sombra dividida entre o chão e a parede. observo-te e sei que te vou ter para sempre, mesmo que num ápice te envolvas com o mundo, sinto o tumulto da tua voz nos meus cabelos até ao mundo acabar.
já dormes, já respiras: o céu é bonito, hoje. na tranquilidade dos lençóis os momentos perdem-se entre centímetros de distância da pele cansada. dormimos, descansando um no outro.
a casa desaba em cima de nós.

12/08/2014

a (flor da) idade

e quando o sol estoirar?
e quando o vento se esconder, o céu se fundir com o mar e os pêlos caírem pelo meio da pele corrompida?
quando a idade se sobrepuser ao destino do que queríamos ser, quando os olhos não virem mais e os ouvidos chorarem de não conseguir ouvir; e as pestanas forem pó em redor dos olhos, e as memórias a única companhia.
primeiro, uma história de dois minutos; depois, um pequeno conto para rir; no fim, eternos romances para chorar.
e em cada soluço uma lágrima de não saber o que é e o que não é, mas sempre a emoção.
a morte antes da morte plena,
os dias sobrecarregados da dor física.
o medo de envelhecer que nos torna humanos.

enfim, fracos.

03/08/2014

todas as aves

a noite abraça-me
como um corvo agarrado a um corpo morto,
pendurado numa gaiola.

a notícia escura de que a solidão
não é só estar sozinho
embarca no meu rosto,
num rio intermitente e indeciso.

paro, olho a janela,
e tal leoa desnorteada a minha cabeça,
sem estar sequer sobre a terra,
uiva com as estrelas que se escondem nas nuvens negras.

todas as montanhas,
todas as aves
e
todos os plenos pedaços de vida
morrem com os meus braços.

não há mais ninguém aqui senão eu,
senão ele que me afaga os sentidos,
senão a brisa nocturna e cruel.

14/06/2014

fecha-se a cabeça em copas quando penso nas razões que me levam a sair com este calor. não encontro vontade nem propósito em enfrentar as chamas do sol pesado, quando não há mais nada lá fora.
só há esta luz que enfeitiça a pele.
(não sei se a singela pose do reflexo do céu no cortinado, se o animal deitado sem descansar a meu lado: algum me deu vontade de escrever).

16/04/2014

sal

reconhecer-te,
é perder-te sem te perder no medo de que partas
sem medo de morrer,
quando te deitas ao meu lado e cheiras a noite,
e replicas o meu nome nos teus lábios
húmidos de sal
na incerteza de que se sonha ou se vive.


14/03/2014

os teus espaços

beijo os teus espaços:
refúgio dos meus pensamentos invisíveis,
minha casa,
meu dossel de sonhos lindos.


03/03/2014

barco

é um martírio não voar.
vincar a pele dos pés que não se unem se não quiserem,
depender deles,
quando se quer mover.

o corpo é efémero.
por isso
sente medo de si próprio, sente medo do movimento e das culpas
que receberá
quando partir.

mas é um martírio não voar!
não saber nadar é um martírio.
é um martírio ter só uma forma de fugir:
não possuir o céu, não possuir o mar,
não possuir o próprio corpo
que,
em loucura desmedida se solta sem pedir.

é assustador o modo como me detesto por não ser pássaro.
por não ser peixe.
por não ser fuligem, saltitante, sobre uma chama louca.
por ser só eu.

errante, fria, quente, imperfeita e muito desconhecedora da liberdade;
uma fraca, viciada, rotineira humana.

e não fosse o mundo uma nuvem.
e não fosse o mundo um barco.