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01/07/2017

as palavras passam no cérebro sempre mais rápido que as sinto, assim como as imagens vêm sempre horas mais cedo que aquilo que as liga.
tenho medo da areia movediça que me puxa todos os dias.

06/02/2017

enquanto uma papoila desabrocha num canto do mundo, há outro local onde me caem as roupas, despindo-me para ti.
tenho medo de me despir todos os dias na constante possibilidade de me lembrar de onde estou. aquele medo diário que tenho em confundir o ventre...
quero muito, mesmo muito, atirar-me de uma janela e senti-la a partir-se atrás de mim, à minha frente, rasgando a minha pele, e assim sentir outra vez a dor como uma coisa nova. a dor que nos consome toda a vida e nunca volta a ser boa. nunca.
nunca nunca nunca nunca nunca nunca
n
u
n
c
a
[...]
o amor e a raiva estão tão perto, neste quarto pequeno feito de casulo onde me deito todas as noites, e de onde saio sempre a mesma lagarta sem saber como subir ao céu sem as nuvens negras.
amei-te tanto.

30/12/2016

roçar o querer à vontade de matar,
todas as pedras que nos espreitam debaixo do mar,
e mais alguns obstáculos.
aqueles que não são físicos.
que não são sabor ou medo.

- o obstáculo da absoluta intromissão no outro, e não saber como sair.
o peito quebra a cada dia, e quando a noite vem é tudo mais difícil

porque as estrelas não nos sorriem atrás das nuvens.
mas esperamos a sua reacção até de madrugada, sem conseguir esperar o amanhã sem doer.
a noite é um monstro. porque o verdadeiro pesadelo vem dos sonhos que não são maus,
mas que são mentira.

20/12/2016

janela

que janela tão quente.
que janela tão quente se abre diante dos meus cabelos: o vento abraça-me os olhos.
sinto falta da solidão. tenho medo dela mas faz-me falta. saber ser só eu. já me esqueci outra vez de ser só eu. de me despir e deitar-me no chão com a roupa à minha volta. de beber algo quente e não me preocupar em sentir mais sabores a partir daí.

de deixar as janelas abertas e permitir ao sol e ao vento que lutem por um lugar na minha pele.

quero fugir.
deixar de ser alguém.
deixar de precisar dos outros.

quero trepar as montanhas mais altas para descobrir que há sempre mais para subir.
- mergulhar nas ondas com a roupa vestida.



07/11/2016

respirar pelos poros da sua pele é como adormecer numa cama de amor, num abraço eterno que dói

28/10/2016

~

o amor é um sentimento imprevisível.
começa de onde não se espera.
quando penso em como comecei a amar-te, acho que não me consigo lembrar de um momento certo. 
(minto). lembro-me.
ou seria só desejo?
esse desejo de te ter que me perseguiu desde aquele verão quente.
(minto).
esse desejo que me perseguiu desde que te conheci.
desejo esse escondido atrás de mim, atrás de muitas coisas que não sabia explicar. desejo esse que vi como proibido apesar do teu olhar que me mordia.  
essa vontade que começou antes de saber o que é querer alguém, e que descobri, isso sim, nesse verão quente.
tantas más memórias desses dias, e só me lembro do teu último abraço. não te deves lembrar... não te lembras de todas as coisas. nem eu. mas lembro-me desse abraço e das palavras doces.
a verdade é que amei outros. amei-os não tendo conhecimento do oprimido sentimento que me assombrava o peito. mas amei muito.
só que tu, quando passávamos um pelo outro. eras tu, o teu nome sempre significou algo, a tua voz, e a recordação do teu beijo.

amo-te

02/10/2016

~~~~~~

com a noite que chegou sem avisar, e os corpos despidos pela tormenta interior que se açambarcou do espírito, beijaste-me também sem aviso e disseste-me as coisas que sempre esperei que dissesses. 
agarraste-me como sempre esperei que agarrasses, fugiste de ti mesmo com a convicção necessária. 
tudo está bem quando acaba bem.

~~~~~~ balançar os pés dentro da banheira enquanto espero pela cruzada.
as aventuras que se aproximam são quentes como as que já foram.
umas quentes porque o sol nos abraça; outras quentes porque queimam da força do gelo ~~~~~~


26/08/2016

manhã escura.
marcas do recobro de uma noite ausente de escuridão.
o corpo cansado, os olhos sorrindo. o sangue galopa pelas veias.

"onde te vias hoje, há 6 meses?"
definitivamente perdida. não expectante do desenrolar das coisas como estão agora.

o sol nasce na tua boca e põe-se nos teus olhos. e se sinto algo diferente de antes, sou eu.
eu e as minhas defesas rugosas, fortes, coladas à pele, presas à alma, que nos vimos rendidas a ficar contigo.
ninguém sabe explicar.
nem eu, nem a minha dificuldade em gostar das coisas e das pessoas.
mas tu vieste.
de novo.
e tu tens ficado.
só consigo dizer que não sei; que a carne que se quer e deseja é forte, e o espírito parece o mesmo; mas a vida e o espaço são limitados, e o recordar está sempre presente. e por mais que a escolha de o ignorar seja nossa, temo que o vento me leve lá.
até lá, ficamos juntos a bafar da certeza do que somos um para o outro.

11/05/2016

não sei se consigo navegar sozinha.
desaprendi, ao crescer decresci, e fechei-me na pequena caverna dos meus olhos.

27/02/2016

a manhã chegou com pedras, que caíam desamparadas do céu confuso.
o tempo bipolar;
as nuvens que tanto sorriem como rugem.

eram seis da manhã e já não podia ouvir a respiração imaginária no meu pescoço.

como um toque de piano, os dedos dos pés tremem em câimbra,
em sintonia com o meu coração
que vibra

v
   i
      b
          r
             a

                 assustado com o que poderá vir, com o que poderá ser. descubro-me agora. só agora. amar; amar-ME; amar-me a m i m. [como me amar]

o desejo da minha nudez junto de outra nudez, junto da nudez do céu; numa casa sem tecto, numa casa sem chão. na delicadeza de um momento fraco e suave.
(suavidade)

"vai, meu coração (...) quem semeia vento (...) tempestade"