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07/09/2015

não saio - não fico

olho para o meu corpo despido ao espelho, à espera que surja um ciclo de imperfeição que me convença de que a procura por algo, além da fraca existência, faz sentido.

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estou convencida.
as cores do céu e do chão trocam-se; desmaio sem amparo; apago-me do dia corriqueiro porque não sinto a capacidade de sequer tocar-me sem sentir pena de mim. apreciava com mais orgulho um tal nojo, falta de misericórdia, ou medo. mas tenho só pena. pena de ser quem sou por quem fui. não espero dele mais que isso, não espero menos. queria só que não tivesse acontecido.
o ser humano resolve-se ao não se resolver. esquece-se da sua casa deixando-a, e esquece-se do seu amor fugindo dele. ele fugiu de mim e esqueceu uma poeira do meu ser, que eu não queria que fosse embora. mas já está. já se fez. já comecei a partir, dei um passo no escuro com o pé esquerdo e agora não sei se alguma vez vou reaver esse sapato.
quem me dera ter fé. olhar para cima e acreditar que há algo maior que eu e maior que tudo, algo que me pudesse dar a sorte de fazer o tempo voltar até ao dia.
o dia...
o dia enfeitiçado por um roubo.
foi-me então roubado o único pedaço de crença que construí em mim, a única parte boa que os meus olhos pousaram em cima de si mesmos; sem isso não sei como andar na rua sem olhar para baixo à espera de cair.
recuso, no entanto, a hipótese de ir embora para esquecer. acho que num misto de compaixão e ternura não me vejo a partir, nem a ficar. não saio com medo da solidão. não fico totalmente, com receio de me entristecer.