manhã escura.
marcas do recobro de uma noite ausente de escuridão.
o corpo cansado, os olhos sorrindo. o sangue galopa pelas veias.
"onde te vias hoje, há 6 meses?"
definitivamente perdida. não expectante do desenrolar das coisas como estão agora.
o sol nasce na tua boca e põe-se nos teus olhos. e se sinto algo diferente de antes, sou eu.
eu e as minhas defesas rugosas, fortes, coladas à pele, presas à alma, que nos vimos rendidas a ficar contigo.
ninguém sabe explicar.
nem eu, nem a minha dificuldade em gostar das coisas e das pessoas.
mas tu vieste.
de novo.
e tu tens ficado.
só consigo dizer que não sei; que a carne que se quer e deseja é forte, e o espírito parece o mesmo; mas a vida e o espaço são limitados, e o recordar está sempre presente. e por mais que a escolha de o ignorar seja nossa, temo que o vento me leve lá.
até lá, ficamos juntos a bafar da certeza do que somos um para o outro.
Número total de visualizações de páginas
11/05/2016
27/02/2016
a manhã chegou com pedras, que caíam desamparadas do céu confuso.
o tempo bipolar;
as nuvens que tanto sorriem como rugem.
eram seis da manhã e já não podia ouvir a respiração imaginária no meu pescoço.
como um toque de piano, os dedos dos pés tremem em câimbra,
em sintonia com o meu coração
que vibra
v
i
b
r
a
assustado com o que poderá vir, com o que poderá ser. descubro-me agora. só agora. amar; amar-ME; amar-me a m i m. [como me amar]
o desejo da minha nudez junto de outra nudez, junto da nudez do céu; numa casa sem tecto, numa casa sem chão. na delicadeza de um momento fraco e suave.
(suavidade)
"vai, meu coração (...) quem semeia vento (...) tempestade"
o tempo bipolar;
as nuvens que tanto sorriem como rugem.
eram seis da manhã e já não podia ouvir a respiração imaginária no meu pescoço.
como um toque de piano, os dedos dos pés tremem em câimbra,
em sintonia com o meu coração
que vibra
v
i
b
r
a
assustado com o que poderá vir, com o que poderá ser. descubro-me agora. só agora. amar; amar-ME; amar-me a m i m. [como me amar]
o desejo da minha nudez junto de outra nudez, junto da nudez do céu; numa casa sem tecto, numa casa sem chão. na delicadeza de um momento fraco e suave.
(suavidade)
"vai, meu coração (...) quem semeia vento (...) tempestade"
20/02/2016
as mulheres também têm musas
mu·sa
substantivo feminino
1. [Mitologia ] Cada uma das deidades que presidiam às ciências, letras e artes liberais, na mitologia grega.
2. [Figurado] Nume, estro; poesia.
"musa", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-
se as musas são poesia, e se parem elas os poetas; poderei ser eu um poeta que procura uma dona de meus dedos pensantes? caberá no mundo um espaço para uma cadeira onde eu me sente, onde escreva noites a fio sobre esta dose de querer que vem avulso no corpo de outrem?
saber que quero e saber quem - tanto o sol como a tempestade - nos espaços entre a trovoada e a luz nublada dos céus azuis.
penso em cabelos, penso em olhos-quase-negros que tocam no ponto mais branco das açucenas do meu jardim rochoso. será o mal maior das mulheres o de não saber se podem ter musas, se lhes podem tocar?
se podem dançar numa lua solta.
ter um par, ter uma musa...
portanto, se musas são poesia - serão o amor? e o amor, será literatura? e a literatura será desejo? e o desejo, será carne? nunca sei. nunca soube. as mulheres também têm musas. pode ser um canto desesperado de um fado meio esquecido; pode ser o trautear de uma avó desgastada pelo tempo; pode ser o cair das cortinas de um teatro vermelho; uma lágrima que percorre a face e as mamas e o umbigo e os joelhos. uma musa pode ser o bocejar de um gato que descansa de descansar, e uma musa pode ser ele.
e l e
e·le |ê| 1
(latim ille, illa, illud, aquele, aquela, aquilo)
pronome pessoal
Pronome pessoal correspondente à terceira pessoa do singular, usado para designar a pessoa ou aquilo de que se fala (ex.: ele já chegou; o responsável é ele; vou falar com ele).
"ele", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-
mas quem me garante que um "ele" é terceira pessoa?
um "ele" sempre foi segunda pessoa. ou primeira. antes de mim, um "ele", antes de "ser" um "é". antes das rosas, os cravos. e antes de "nós", a Liberdade.
e quando vejo o mar a percorrer o mundo e a pintá-lo de azul, ou o campo a pacificar os montes que choram, lembro-me de uma só musa que o saiba apreciar comigo. de um conjunto de frases num papel amachucado que temo em mostrar por nunca saber apresentá-lo.
tenho medo de apresentar-me como a detentora dessa musa que é poesia em pele, porque sei que não sou musa de ninguém.
um homem pode então ser uma musa, se a sua musa for outra. e será, sempre, musa de poemas por ser poema. porque o esconder-se é bonito e o revelar-se mais é.
as tardes mais bonitas são aquelas passadas em frente a uma janela que apresenta à casa um mundo que só é preenchido de for avistado em companhia.
18/02/2016
17/02/2016
lugar
o relógio das nuvens tocou cedo,
quando respirava entre as almofadas, e os aromas
(a cama cheia de chuva)
não consigo deixar-te ir nas ondas do mar do tempo.
as flores pequenas dos campos voam,
em conformidade com a cor do céu.
eu voo também, junto-me à decisão de ser natural,
corto os braços e colo asas e apego-me ao luto das andorinhas...
porque
tudo morre, tudo pode voltar a morrer mesmo depois de morto.
porém, os raios que passam do telhado inexistente
iluminam as premissas de uma vida adormecida,
e ao sarar as linhas de um casulo do qual escorre sangue doce,
danço nos ponteiros desse relógio sem casa.
desvendo um mundo-mistério, desvendo a vida que me dás
que mesmo que não te seja devolvida é usada sem reserva.
encontrei um fugidio lugar,
o meu chão para os meus pés descalços.
quando respirava entre as almofadas, e os aromas
(a cama cheia de chuva)
não consigo deixar-te ir nas ondas do mar do tempo.
as flores pequenas dos campos voam,
em conformidade com a cor do céu.
eu voo também, junto-me à decisão de ser natural,
corto os braços e colo asas e apego-me ao luto das andorinhas...
porque
tudo morre, tudo pode voltar a morrer mesmo depois de morto.
porém, os raios que passam do telhado inexistente
iluminam as premissas de uma vida adormecida,
e ao sarar as linhas de um casulo do qual escorre sangue doce,
danço nos ponteiros desse relógio sem casa.
desvendo um mundo-mistério, desvendo a vida que me dás
que mesmo que não te seja devolvida é usada sem reserva.
encontrei um fugidio lugar,
o meu chão para os meus pés descalços.
05/02/2016
poço
há precisamente duas semanas precisava de me descobrir.
passado esse tempo continuo sem saber quem sou. só sei quando tenho fome ou não (sendo que a segunda opção é a mais comum) e só sei quando quero fugir dos locais populados e quando me sinto bem acompanhada. raramente não fujo. raramente crio laços.
raramente sei sequer como os criar, porque o mundo rodeia-me demasiado frequentemente e num tom demasiado claustrofóbico.
ondas de todas as direcções assaltam-me o corpo.
ondas de todas as direcções assaltam-me o corpo.
já não sei calcular movimentos e, mais grave que isso, não sei sequer mover-me sozinha. fico à espera de um estímulo musical da própria vida, e a eterna espera dessa sensação prende-me num poço com fundo infinito.
03/02/2016
10/01/2016
quem me dera ser uma lagarta no meio do mundo enorme, onde não me sentiria nem a mais nem a menos, apenas me preocupava com a qualidade do verde que ingeria e nem precisava de fugir de ninguém de tão pequenina que era.
quem me dera ser uma lagarta que não precisasse de nadar ou de correr, que a viagem eram todas as viagens, estavam à distância de uma mudança de pele.
dançava naturalmente (porque é isso que as lagartas fazem), era sábia, e no dia em que me tornasse uma borboleta tinha pouco tempo para bater as asas. assim, batia-as com toda a velocidade, via o planeta só de cima e a vida acabava num último bater de asa em câmara lenta.
17/11/2015
nada
oh morrer
não sei se será possível, quando morra,
voltar para ver quem ficou com as minhas roupas
quem ficou com as memórias
do meu suor transcendente
de tentar ser feliz,
sem nunca saber como
lutar contra o mar, mas
apaixonar-me por ele.
que, quando morra, a minha campa
seja decorada de conchas:
nada é mais eterno que as ondas...
e o meu peito é água.
não sei se será possível, quando morra,
voltar para ver quem ficou com as minhas roupas
quem ficou com as memórias
do meu suor transcendente
de tentar ser feliz,
sem nunca saber como
lutar contra o mar, mas
apaixonar-me por ele.
que, quando morra, a minha campa
seja decorada de conchas:
nada é mais eterno que as ondas...
e o meu peito é água.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

