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16/04/2014

sal

reconhecer-te,
é perder-te sem te perder no medo de que partas
sem medo de morrer,
quando te deitas ao meu lado e cheiras a noite,
e replicas o meu nome nos teus lábios
húmidos de sal
na incerteza de que se sonha ou se vive.


14/03/2014

os teus espaços

beijo os teus espaços:
refúgio dos meus pensamentos invisíveis,
minha casa,
meu dossel de sonhos lindos.


03/03/2014

barco

é um martírio não voar.
vincar a pele dos pés que não se unem se não quiserem,
depender deles,
quando se quer mover.

o corpo é efémero.
por isso
sente medo de si próprio, sente medo do movimento e das culpas
que receberá
quando partir.

mas é um martírio não voar!
não saber nadar é um martírio.
é um martírio ter só uma forma de fugir:
não possuir o céu, não possuir o mar,
não possuir o próprio corpo
que,
em loucura desmedida se solta sem pedir.

é assustador o modo como me detesto por não ser pássaro.
por não ser peixe.
por não ser fuligem, saltitante, sobre uma chama louca.
por ser só eu.

errante, fria, quente, imperfeita e muito desconhecedora da liberdade;
uma fraca, viciada, rotineira humana.

e não fosse o mundo uma nuvem.
e não fosse o mundo um barco.

18/12/2013

ilha

tenho os pés encostados à parede. 
ouve-se o som das unhas a raspar nas rugas da tinta que há muito secou, 
enquanto balanço as pernas numa dança
que não é bem dança,
mas um balanço vagaroso e demorado,
ao som do nada.

penso em nada também, com os olhos postos no céu
e o corpo no mar (que não existe) que me embala
e me faz ''dançar''.
flutuo com nenhum vigor sobre mim própria e
vejo-me de cima.

[sonho um pouco acordada:
lembro-me de que tenho medo do mar e,
que mesmo assim,
me envolvo nele. nas ondas, 
no verde e no branco,
nos reflexos translúcidos de mim nele]

os meus pés outra vez.
a ponta das unhas está branca, com restos da pintura a cal
que destruí sem querer,
por estar perdida sem sequer me mexer.

enrolei-me e adormeci
com as dores habituais, e os braços mortais
debaixo do corpo que se cansa sem se cansar,
e os dedos dormentes de uma pesquisa às feridas-fantasma.

tenho medo.
não sei o que há, mas penso no que poderá haver.

e entre as ondas
e os medos
e os pés
e os braços
e o corpo cansado, sem estar cansado
e a alma que é dura e a penugem dos braços que levanta quando a brisa passa,
estou eu no meu mundo,
que é mais pequeno que uma pequena aldeia perdida
numa ilha desconhecida,
que nem eu conheço.

17/11/2013

cheia

os braços que me amarram 
e arrastam pela areia 
são mais fracos que eu.

levam-me por um habitat incógnito, 
uma viagem incógnita, 
onde o céu e o chão são um só, 
e as nuvens acabam por levedar.

cheia de nada e à procura de tudo 
deixo-me 
de mim própria 
na ânsia da procura

à prova de bala, 
frágil para os ventos, 
voo 
para lá das escolhas e dos enigmas 
e entrego-me ao horizonte

e na inquietação
de te querer sem saber ainda se quero
e sabendo que não me queres a mim
pois há demasiada conexão, 
que não evita o desejo (só o teu)

continuo a procurar de ti
pedaços
de uma memória que ainda não veio
mas que precisa de nascer como eu,
agora,
começo a nascer em ti.

21/10/2013

fio

os meus olhos são contas de bijutaria
presas no fio que me liga
a ti




03/10/2013

filmes

''Charlotte: I tried taking pictures, but they were so mediocre. I guess every girl goes through a photography phase. You know, horses... taking pictures of your feet.''


''Bob: You're not hopeless.''



02/10/2013

em chamas

volta depressa.
estou a começar a perder a forma
que está moldada pelos teus lábios.

a tua boca moldou-me o corpo,
e agora
as mãos já se desfiguram, as unhas perdem a cor

até as minhas unhas te precisam,
te amam.
te agarraram, pelo meio da ebulição dos momentos.
agarraram-te(me)
quando estavas, quando ias
quando vinhas.

os meus olhos ardem
se olho para outro que não tu,
o meu corpo arde: ressacado.
ressaco de ti, porque a tua pele não precisa da minha.

''és feito de flores'' lembras-te?
e eu sou louca;
louca por ti;
(não doente, louca) - os loucos não são doentes.

mas vem para pegares nas minhas mãos sozinhas,
levares-me a conhecer-te outra vez
como se nunca te tivesse tido.

vem,
começar de novo,
rejuvenescer da podridão do tempo que passou,
que continua a passar,
e que passará
por ti, por mim, por nós, por todos.

quero-te todos os dias mais.
a cores
a preto-e-branco,
de carne e osso.

e as tuas mãos,
com o dobro do tamanho das minhas (mãos de herói, mãos de ti)
que venham aquecer as minhas no frio,
venham no inverno 
para assustar o vento,
e no verão 
para assustar o mar.

deixa-te disso! deixa-te dessa solitária em movimento
e vem cá ter, vem cá parar
nem que seja por acidente.

já não conheço a noite se não fores tu a dizer-me o que ela é 
sem roupa.
já não me conheço se não fores tu a dizer-me quem eu sou
com roupa.
e já não sei quem és tu se não fores tu a falar comigo
com os olhos.







29/09/2013

''mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons''

''Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons''

[quero-te comigo.]

18/05/2013

Vinicius


''Amo-te como um bicho, simplesmente. De um amor sem mistério e sem virtude, com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim, muito e repetidamente, é que um dia em teu corpo de repente, hei de morrer de amar mais do que pude.''
Vinicius de Moraes